terça-feira, 4 de maio de 2010

Viajo em ti

acendi-um com um fósforo..dá-me um ar intelectual misterioso..melancólico até.. Já não sei se é do fósforo incandescente ou dos acordes que já me estendem o pelo na pele..ao de leve..
mais uma passa..passa..que trespassa..passa..passou.
não repito por acaso. escrevo já ao ritmo dos acordes que se repetem e se repetem e se derretem se derretem se...no ouvido.
palmas.
já acabou? estado ansiedade.
na verdade, continua..mais nua agora, mais crua.
Parei para te curtir.. de escrever, não de ouvir. Deves estar a.. CURTIR! à brava. a sentir cada som como se de um solo, que o é, se tratasse..tratasse,trattasse.
Acaba e repito mais uma vez.
Agradeço e parto até à próxima viagem..
até à próxima paragem..
Onde cheguei.
Onde Estarei..........
?


Miguel Coutinho

ao ritmo de Mano "onde estarei"

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Lua e Sol em Caranguejo

Abro os olhos acordo em Lisboa.

Não sei se acordei de um sonho ou se dormi um pesadelo, mas! ao acordar segue-se um novo dia. e Esse dia chegou. E chega todos os dias.
Seja depois de um sonho ou das brumas de um pesadelo.

Abro os olhos acordo em Lisboa.

Está calor. Já não sinto o frio. Minto.
Se sinto o calor é pela razão do frio.
O frio já não me incomoda. Mas sinto.
E a chuva já não me molha.

Abro os olhos acordo em Lisboa.

Os dias estão maiores. VINTE E QUATRO horas.
às vezes 25.
As horas estão mais pequenas. SESSENTA minutos.
por vezes 45.
E os minutos.. ai, os minutos.. UMA VIDA.
às vezes e por vezes num minuto muda todo o Meu Dia.

Abro os olhos acordo em Lisboa.

Na cadência de uma balada. OU num allegretto andamento.
VOU.
por aí, por ali, por acolá. até aí.
até lá.
Vou. mas volto. VOLTO sempre.
Quando dá.

Abro os olhos acordo em Lisboa.

Às vezes paro.
Há SÍTIOS por onde não consigo passar.
Fico.
Páro e Fico sem esitar.
Deixo-me envolver. Descanso o olhar.
Visito AQUELE lugar.
Lugar é plural. aquele também.
e deixo-me Voar.
por momentos e pessoas e lugares. e ninguém.
Momentos e pessoas no singular.
A voar, sentado, nunca vem.
o dia que não é singular.
e o singular.
que do plural se faz também.

Abro os olhos acordo em Lisboa.

A estrela que não é jardim,
repousa seus raios no Adamastor. Que não é gigante.
acaba no horizonte.
Desaba sobre o Rio.
E quando esse sol que me ilumina e aquece...desfalece,
Vejo a Lua em meu redor.
Sinto a Lua.
Em todo o seu esplendor.


Abro os olhos acordo em Lisboa.

Fecho os olhos e adormeço.
à espera de acordar.

Em Lisboa.



Miguel Coutinho





terça-feira, 6 de abril de 2010

E C L I P S E

Queria ter-te Abraçado com muito mais força..

Queria ter-te Abraçado muito mais tempo..

Quando?



...de todas as vezes que te Abracei.



Miguel MooN

domingo, 27 de dezembro de 2009

Lua Adversa

Tenho fases, como a lua,
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!

Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...).
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...


Cecília Meireles, in 'Vaga Música'

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Cartas De Amor

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)



Alvaro De Campos

sábado, 28 de novembro de 2009

A Vida que nos escapa entre os dedos

Volta-se o rico para os prazeres da carne e a maior parte do mundo faz o mesmo. E não sem acerto, porque todas as coisas agradáveis devem ser tidas como inocentes, e até que se provem culpadas todas as presunções pendem a seu favor. A vida já é bastante penosa para que ainda a agravemos com proibições e obstáculos aos seus deleites; tão arisca se mostra a felicidade que todas as portas por onde ela queira entrar devem permanecer escancaradas. A carne enfraquece muito precocemente - e os olhos olham com melancolia para os prazeres de outrora. Muito rápidamente todas as alegrias perdem a vivacidade - e admiramo-nos de como pudessem ter-nos interessado tanto. O próprio amor torna-se grotesco logo que atinge os seus fins. Guardemos o ascetismo para a estação própria - a velhice.
É este o grande drama do prazer; todas as coisas agradáveis acabam por amargar; todas as flores murcham quando as colhemos, e o amor morre tanto mais depressa quanto é mais retribuído. Por isso o passado parece-nos sempre melhor que o presente; esquecemos os espinhos das rosas colhidas; saltamos por cima dos insultos e injúrias e demoramo-nos sobre as vitórias. O presente parece muito mesquinho diante de um passado do qual só retemos na memória o bom, e diante de um futuro que ainda é sonho. O que alcançamos nunca nos contenta; «olhamos para diante e para trás em procura do que não está ali»; não somos bastante sábios para amar o presente do mesmo modo que o amaremos quando se tornar passado. Quando mergulhamos num prazer, o nosso olhar vai para longe - a felicidade ainda não está alcançada apesar de termos o deleite nos nossos braços. Que mau demónio nos afeiçoou assim?


Will Durant, in "Filosofia da Vida"